Contos

O Jardim da Primaveras

Autor - O. S. Berquó

As roseiras se preparavam, ainda molhadas pelo orvalho da madrugada, para receber o sol que ameaçava romper a tênue neblina que se dissipava aos poucos naquela manhã de final de inverno. Um novo tempo, um novo ciclo de esplendor e vida estava, dia a dia, acelerando o ritmo das seivas que corriam pelos recônditos mais íntimos das roseiras e de suas vizinhas. Era a renovação. Margaridas, ainda tímidas e recolhidas, também ameaçavam despertar. Não muito longe dali, o grande canteiro de Petúnias e Begônias então demonstrava a força da nova estação, cercado, como em guarnição, por uma esteira de pequenos e majestosos Miosótis que bordavam com seu azul, ainda esmaecido, a entrada daquele santuário de vida. As flores esperavam uma espera que não se media em tempo. Não era um aguardar sem sentimento. Já fazia muito que dona Neuma cuidava daquele lugar e amava todas as flores. Só sentia falta das Tulipas, que muitas vezes plantou, mas nunca tinham vingado. Ela adorava Tulipas. Via nelas algo de sua juventude. O porte, o viço e a elegância daquela flor lhe traziam a lembrança dos bailes memoráveis do Clube do Comércio em que ela girava, garbosa, nos braços de seu amado e ao som da orquestra tocando valsa. Desde a prematura partida de seu marido, fato que lhe impôs uma profunda tristeza muitos anos antes, aquela senhora transferiu boa parte de sua existência ao Jardim das Primaveras, como gostava de chamar. Com as mãos, a cada estação mais trêmulas pelo peso dos anos, a frágil senhora trabalhava com carinho e não descuidava de nenhuma de suas amigas. Especial atenção era prestada ao Girassol do canteiro central. Conversava com ele. E era uma conversa tão carinhosa e íntima que despertava sentimentos no restante das flores. Corria pelos canteiros uma pequena sensação de inveja diante de tamanha dedicação. Desconfiavam, comentando a boca pequena, as Margaridas e as Dálias, que dona Neuma encontrava ali seu querido companheiro de tantos anos. Havia algo de estranho e mágico naquele lugar. Emparedado entre gigantes acinzentados, o pequeno oásis de verde e cor, reinava, imponente, abrindo uma ferida alegre na pardacenta paisagem da cidade a sua volta. As flores continuavam, como sempre faziam nesta época do ano, voltadas para a pequena porta branca que demorava em se abrir, e nem notavam a nova vizinha, que ainda tímida, começava a desabrochar no canteiro central, bem ao lado do grande Girassol, que a esta altura já despontava, com um vigor e um brilho não antes visto. Dona Neuma estava atrasada. O calor, o sol e os chuviscos dos dias que iam passando aliviavam a angustiante espera das flores. Algo de diferente estava acontecendo, elas sabiam. Sobreviveram, todas, aos rigores do inverno na esperança do novo tempo, da sua estação que, enfim, chegara. Mas a velha companheira não abrira a porta como fazia há longo tempo. E, de algum modo, as flores intuiam: aquela porta não se abriria mais. O Jardim das Primaveras, contudo, continuava diferente e mágico. Olhando um pouco mais à miúde, podia-se até perceber um tom a mais aqui e ali. As flores já não estavam tristes por saudades da velha companheira. E, no canteiro central, ao som da valsa tocada pelos passáros daquele pequeno paraíso, desabrochava uma linda Tulipa bem ao lado do garboso Girassol. Aquela pequenina porta branca nunca mais abriria e dona Neuma, agora flor, não sairia mais dali.


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O Menino o Velho e o Mar

Autor- O.S. Berquó

De pés descalços na areia encharcada, eles olhavam a vastidão imponente que se abria a sua frente.
É de um poder infinito... - Murmurou o velho, com os olhos voltados para muito além de onde realmente podia ver.
Quem? - Quis saber o menino, inquieto, na ponta dos pés que se afundavam na areia fina.
Por alguns instantes não houve qualquer resposta. O velho parecia perdido na imensidão do mar. Era como se as ondas de um repuxo em desalinho o tivessem tragado e arrastado para bem longe. Traiçoeiras, aquelas moças. Ondas. Tião estava tão absorvido pela magia do lugar e do momento que, por instantes, tinha se esquecido do menino. Ele quase estava menino. A brisa suave e fria de final de tarde arrepiava sua pele enrugada, mas, como a compensar desculpando-se pelo pequeno desconforto, trazia o cheiro de maresia, que Tião sempre gostara. O mar lembrava, o vento lembrava, e as ondas em reverência de boas vidas, vinham lamber-lhe os pés. Bons momentos. Pensou no menino, mas não recordava como tinham chegado até ali. O esquecimento era um companheiro cada vez mais presente nos últimos tempos. O velho octogenário não tinha certeza se isto era bom ou não. Indecisão, velha acompanhante que se mostrava a cada dia mais íntima e mais próxima e que deixava seus pensamentos trôpegos, como trôpego era o seu andar. Tião agora podia ver a expressão alegre do garoto. Quase sentia aquela alegria... Que saudades.
Eu queria ir até o outro lado! - Disparou o garoto, apontando para a linha que celebrava o encontro eterno entre céu e mar. Era uma visão bela. O tom avermelhado do final de tarde, que ia se despedindo aos poucos, parecia se lamentar chorando um choro fino, como fina era a chuva da linha do horizonte.
A exclamação vivaz do menino arrancou um leve sorriso no canto dos lábios murchos de Tião. Quem não quer? - Pensou,mas não disse. Ou melhor, quem um dia não quis? - Ponderou, levantando o olhar para acompanhar melhor o sentimento do pequeno companheiro. Ficaram ali por um bom tempo, lado a lado, bem juntinhos, quietos. O menino via aventuras, novas terras, desafios. O velho, via o cansaço, a impossibilidade, a prisão de sua fragilidade. Naqueles breves instantes eles viveram a mesma coisa: sonhos. O pequeno sonhava o futuro, o velho sonhava o passado. Tião percebia no brilho dos olhos do garoto algo que conheceu, mas que não conseguia mais sentir. Lutou consigo mesmo, com sua memória. Foram momentos breves de uma luta triste. Tião suplicava a si mesmo por alguns segundos da sensação de menino. Tinha esquecido. O garoto se fora... Não voltaria mais... Talvez em sonho. Somente eles, os sonhos, eram capazes de afastar a solidão do velho do mar. Era um aperto forte num peito ôco. Era uma dor tão profunda, vazia e gelada, como se fosse o abismo mais escuro do oceano a sua frente. O velho Tião estava cansado. Ainda gostava do mar, mas preferia o sonho. Mas o sonho não é um mar. E, vencido, ele só queria cerrar os olhos pela última vez e viver num mar... de sonhos.